Por John Lucas (Gazeta do Povo)
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou nesta segunda-feira (5) o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial do Brasil, mas voltou a evitar uma declaração direta de apoio ao candidato da direita na disputa contra o presidente Lula (PT).
Questionado sobre o resultado, Trump classificou a votação de Flávio como uma “vitória muito, muito grande” e disse que o resultado foi “incrível”. O senador terminou o primeiro turno, realizado neste domingo (4), liderando a votação, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam a se enfrentar nas urnas no dia 25 de outubro.
A fala foi a manifestação mais aberta de Trump sobre Flávio desde o início da atual campanha. Ainda assim, o presidente americano não pediu votos ao candidato do PL, nem declarou formalmente que desejava sua vitória na disputa contra Lula.
A cautela é interessante porque, nos últimos anos, Trump declarou apoio a alguns candidatos da direita em eleições por todo o mundo e chegou, no caso da eleição legislativa argentina e em Honduras, a vincular a continuidade do apoio financeiro americano ao país ao resultado das urnas.
Sobre o Brasil, porém, o comportamento de Trump tem sido diferente. Segundo o jornal Washington Post, a decisão de manter Trump “afastado” da campanha de Flávio foi decidida tanto por integrantes da Casa Branca quanto por aliados do próprio senador brasileiro. O jornal americano lembrou que, quando Flávio visitou Trump na Casa Branca no começo deste ano, a equipe do senador já havia decidido que não pediria o apoio do republicano à candidatura do presidenciável do PL. Ao jornal, o empresário Paulo Figueiredo disse que a candidatura presidencial não foi discutida na visita e que Trump também não ofereceu apoio formal a Flávio.
Do lado americano, a conclusão teria sido semelhante. Um assessor da Casa Branca afirmou ao jornal americano que a avaliação neste momento era de que um apoio de Trump a Flávio poderia produzir efeito contrário ao pretendido pelo republicano na disputa. A preocupação estava ligada principalmente à tentativa de Lula de colocar a questão da “soberania nacional” no centro da disputa eleitoral.
Durante o último ano, devido à falta de negociação por parte do governo Lula e à escalada da censura do Judiciário no Brasil, o governo Trump aumentou tarifas sobre a importação de produtos brasileiros, aplicou sanções contra autoridades do país – entre elas a Lei Magnitsky, contra o ministro Alexandre de Moraes, por perseguição contra a oposição – e pressionou Brasília por causa do processo de suposto golpe de Estado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. Lula passou então a apresentar tais medidas como uma interferência e um “ataque à soberania” do Brasil por parte dos Estados Unidos.
Segundo o Post, integrantes da Casa Branca começaram a perceber que o discurso do petista estava ganhando espaço entre eleitores. O assessor do governo americano afirmou ao jornal que, quando Trump deixava de ser assunto na campanha presidencial brasileira, Lula tinha mais dificuldade para explorar o discurso de “interferência” dos Estados Unidos na eleição, e a estratégia do petista de usar o tema para ganhar eleitores perdia força. Por isso, a Casa Branca teria concluído que uma declaração aberta de apoio a Flávio neste momento poderia entregar ao petista justamente um argumento que Washington quer retirar da campanha.
A avaliação atribuída à Casa Branca pelo Post é semelhante à de Cezar Roedel, mestre em relações internacionais e estrategista internacional. À Gazeta do Povo, ele lembrou que a postura de Trump neste momento tem mais relação com cálculo político do que com hesitação em relação à candidatura de Flávio.
“A preferência política de Trump parece bastante clara, mas uma declaração formal de apoio teria um custo e poderia produzir o efeito contrário ao pretendido”, disse o analista. Ele lembra que Flávio chegou a este segundo turno na frente de Lula e precisa agora ampliar sua votação para além do eleitorado da direita. Nesse cenário, segundo Roedel, Trump ganha mais mantendo apenas sinais de proximidade com Flávio, como a fala desta segunda, do que entrando diretamente na campanha brasileira.
“Trump conseguiu elogiar o desempenho de Flávio e sinalizar claramente sua simpatia sem pedir votos e sem transformar formalmente a eleição brasileira em uma disputa entre Washington e Brasília”, analisou.
Segundo o estrategista, o histórico recente de tarifas e sanções dos Estados Unidos contra o Brasil tornou qualquer gesto da Casa Branca mais sensível durante a campanha.
“As tarifas já colocaram os Estados Unidos no centro da disputa brasileira e deram a Lula espaço para explorar o discurso da soberania. Um apoio explícito permitiria ao PT associar Flávio novamente à pressão americana sobre o Brasil, desviando o debate dos problemas internos do governo Lula para uma discussão sobre interferência estrangeira”, disse.
Flávio Pierobon, advogado e mestre em Ciência Jurídica e professor da Universidade Positivo, também avalia que a reação de Trump ao resultado do primeiro turno pode ter sido calculada. Segundo ele, apesar da proximidade política entre Trump e Flávio, o republicano ainda precisa considerar a possibilidade de Lula permanecer no poder.
“A vitória ainda não chegou, as eleições ainda não acabaram. Se eventualmente Flávio não confirmar a vitória no segundo turno, Trump vai ter que, em algum momento dos próximos dois anos de mandato, conversar com Lula. Ter vestido o boné do Flávio e dado apoio explícito a outro candidato acaba construindo mais muros do que pontes numa eventual relação entre os países”, disse.
Igor Lucena, doutor em relações internacionais, observa que uma manifestação aberta de Trump sobre Flávio também poderia ser explorada pelos adversários do senador para questionar a legitimidade de uma eventual vitória dele. “Acho que o governo americano também faz esse cálculo de não dar armas para deslegitimar uma possível vitória de Flávio”, disse.