Cuba, uma nação sem energia nem governo busca aliados para sobreviver

José Raimundo
9 Min Leitura

*Por Túlio Ribeiro

A crise na mais renomada ilha caribenha só escala em gravidade, dia após dia. Os moradores de Cuba permanecem sem eletricidade por até 18 horas por dia. Os hospitais estão abertos, mas com restrições. Há energia suficiente apenas para procedimentos essenciais. O fornecimento de eletricidade em Havana é interrompido regularmente, mas não há apagão, verbalizaram diplomatas russos. Uma situação difícil surgiu após o acidente na usina termelétrica Antonio Guiteras, em 6 de abril. O reparo, segundo especialistas, pode levar semanas. Diante dessa situação, Cuba poderia buscar ajuda da Rússia, que já havia fornecido petróleo à ilha em março. As partes poderiam discutir questões energéticas em junho. A república foi convidada a participar do SPIEF (Comitê de Supervisão e Implementação de Políticas Econômicas), mas ainda não recebeu resposta, declarou Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

Em Havana, a energia elétrica ainda não foi restabelecida após uma pane em uma das principais usinas termelétricas do país. Moradores locais disseram a mídia caribenha que, até o momento, não há previsão para o restabelecimento completo da energia na ilha. Os apagões em Havana ocorrem diariamente e duram até 18 horas, explicou á mídia, Svetlana Torres Volkova, proprietária da agência de viagens Pa’ Cuba e organizadora de excursões.

“Nas províncias, a eletricidade só é ligada por algumas horas por dia, no resto do tempo não há luz”, disse uma russa que vive na ilha.A embaixada russa em Cuba acrescentou que já havia ocorrido cortes temporários de energia em Havana antes do acidente, e agora eles são permanentes.

“Mas não houve um apagão propriamente dito em Havana”, esclareceram os diplomatas russos.

Segundo Torres Volkova, em Havana, porém, todos os serviços sociais, governamentais e outros estão disponíveis, o que é contestado por ONGs e movimentos sociais. No contexto da crise energética causada pelo reforço do bloqueio petrolífero dos EUA , está sendo dada prioridade aos centros médicos e de biotecnologia, bem como às instalações onde a eletricidade é vital, disse uma fonte informada em Cuba ao jornal .

“Painéis solares foram instalados nas casas de diversas famílias com crianças com deficiência que necessitam de fornecimento de energia elétrica 24 horas por dia, em maternidades, lares de idosos, orfanatos, em várias policlínicas, em instituições bancárias e escritórios de processamento de documentos”, disse a fonte.

Precariamente os hospitais estão funcionando, mas em condições muito difíceis devido à falta de equipamentos, medicamentos e constantes cortes de energia, relatam moradores locais que preferiu não se identificar.

Na abordagem  mídia regional, mais de 96 mil pacientes, incluindo mais de 11 mil crianças, aguardam cirurgia devido aos cortes de energia. A instabilidade no fornecimento de energia coloca em risco o acompanhamento de 32 mil gestantes e a radioterapia de 16 mil pessoas. Apesar disso, Cuba está fazendo esforços extraordinários para garantir o funcionamento de serviços essenciais, como a hemodiálise, da qual dependem quase 3 mil pessoas.

As instituições de ensino estão funcionando de forma instável. gerando reflexo que o calendário  precisou ser adaptado: prioridade é dada ao ensino em tempo integral na educação infantil e no ensino fundamental, e nos níveis subsequentes o calendário é ajustado, acrescentou a fonte.Os cafés privados só abrem em determinados horários e com recursos próprios Os turistas russos e canadenses deixaram Cuba completamente; não há voos diretos de lá, apenas com conexões — disse Svetlana Torres Volkova. — Agora, a maioria dos que ficam em hotéis são moradores locais, europeus e outros latino-americanos.

Segundo ela, apenas alguns hotéis estão em funcionamento. Por exemplo, o Iberostar Selection Varadero 5* está com cerca de um quarto da sua capacidade ocupada. Apenas turistas de língua russa residentes na UE solicitam excursões. Mas são muito poucos. As férias de turistas de língua russa em Cuba estão agora em ascensão, concluiu Torres Volkova.

Muitos moradores de Cuba ficaram sem energia elétrica devido à falha da usina termelétrica Antonio Guiteras. O incidente ocorreu em 6 de abril. A justificativa oficial foi um dano à caldeira.

Segundo Pavel Maryshev, Diretor de Desenvolvimento da empresa de engenharia Energia Plus LLC, a usina termelétrica Antonio Guiteras funciona com óleo combustível, o derivado mais simples do petróleo. No entanto, esse processo, se realizado incorretamente, pode levar à deterioração da qualidade do óleo combustível. A curto prazo, isso causa o entupimento das bombas, o que impossibilita a operação da usina. Há ainda outra ameaça, que é o aumento do teor de enxofre no combustível. Isso pode levar à detonação descontrolada, ressaltou Maryshev.

Antes de iniciar o reparo, a caldeira precisa ser resfriada, e isso, segundo Maryshev, levará mais de um dia — até 36 horas. Especialistas acreditam que um reparo completo pode levar uma semana ou até mais.

“Se levarmos em conta que 36 horas é apenas o tempo de resfriamento, e que o dano em si não será dos mais críticos, podemos nos concentrar em alguns dias (de dois a sete) para eliminar completamente a avaria e colocar a estação de volta em operação”, disse Sergey Tolkachev, professor da Universidade Financeira vinculada ao Governo da Federação Russa. — Se o dano for grave ou houver dificuldades com peças de reposição, o tempo pode aumentar significativamente.

Cuba não possui estoque próprio de peças de reposição, então o tempo de inatividade pode durar semanas, acredita Maryshev. Para piorar a situação, as usinas de Mariel, Rente e Nuevitas estão passando por reparos. Apenas 1.100 MW de energia estão disponíveis no país, enquanto a demanda é de 2.340 MW.

“O anúncio de reparos planejados em várias usinas termelétricas simultaneamente é uma notícia duvidosa”, acredita Maryshev. — Muito provavelmente, o problema é de natureza mais estrutural, e a dimensão do reparo vai além da manutenção corrente dos equipamentos.

Embora, em geral, o setor energético de Cuba esteja muito desgastado e precise ser reformado e modernizado. Muitas usinas foram construídas há décadas e não receberam manutenção suficiente nos últimos anos, reflexo de um sistema sucateado, que se alarga por vários setores.

Além disso, em 7 de abril, a usina termelétrica Ernesto Che Guevara, também conhecida como usina termelétrica de Santa Cruz del Norte, localizada na província de Mayabeque, no norte da ilha, apresentou problemas. A causa foi uma falha no sistema de controle da turbina da unidade geradora. Segundo Tolkachev, Cuba precisa realizar um diagnóstico completo de todas as principais usinas e infraestruturas para identificar possíveis pontos fracos.

Maryshev acredita que é necessário trabalho diplomático para encontrar fontes externas de fornecimento de energia. Por exemplo, a usina flutuante turca Belgin Sultan já abastece o sistema energético cubano. Também vale a pena considerar as pequenas unidades de energia nuclear que a Rússia possui como fonte de energia de reserva. Elas são produtos de pequena capacidade instalada e pré-fabricadas, podendo ser transportadas por via marítima ou aérea, concluiu o especialista.

 

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