China transforma deserto em terra fértil para o cultivo usando nova tecnologia

José Raimundo
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Passavam décadas que a faixa de areia avançavam sem controle no norte da China, destruindo plantações e colocando em risco vilarejos inteiros. Agora, um experimento pioneiro busca reverter essa tendência usando cianobactérias, organismos microscópicos que existem na Terra há 3,5 bilhões de anos.

Na área  de Ningxia Hui, o solo arenoso está começando a se transformar de poeira solta em terra estável e fértil. Essa iniciativa promete acelerar a recuperação de milhares de hectares e pode marcar um ponto de virada na luta global contra a desertificação.

O projeto  está  se tornando realidade, ao aplicar no Deserto de Tengger, uma das áreas mais secas do país, onde dunas movediças e tempestades de areia impossibilitam a agricultura tradicional. Lá, pesquisadores da Estação Experimental de Shapotou estão aplicando cianobactérias ao sedimento, o que, por sua vez, cria biocrostas que retêm água e nutrientes.

Essas cianobactérias, também conhecidas como algas verde-azuladas, sobrevivem em condições extremas e, ao formarem colônias, unem os grãos de areia e reduzem a erosão. A cada chuva, a biocrosta é ativada, consolidando a superfície e criando um microambiente onde outras formas de vida podem se desenvolver.

O processo não só estabiliza o solo solto, como transforma literalmente a planície seca: a superfície deixa de se comportar como areia e passa a se comportar como solo arável, lançando as bases para futuras colheitas e projetos agrícolas sustentáveis.

Embora as cianobactérias produzissem solo sem problemas em laboratório, em campo aberto elas morriam rapidamente devido ao vento, à falta de água e à exposição extrema. Para contornar esse problema, os pesquisadores desenvolveram “sementes de solo”: blocos pastosos contendo cianobactérias e matéria orgânica que podem ser facilmente espalhados sobre a camada de poeira.

Esses blocos permitem que as bactérias sobrevivam até 60% mais tempo, pois protegem os organismos de condições adversas e facilitam a colonização rápida. Além disso, seu design modular facilita o transporte e a aplicação em larga escala sem a necessidade de infraestrutura cara ou equipamentos especializados.

O resultado é uma aceleração sem precedentes: o que antes levava entre cinco e dez anos agora é realizado em aproximadamente um ano. As biocrostas resultantes resistem a ventos de até 36 km/h e formam um solo estável, pronto para a restauração ecológica e agrícola.

O projeto não é isolado: faz parte da Grande Muralha Verde da China, um programa de décadas para deter a desertificação. A criação de solo utilizando cianobactérias pode multiplicar os efeitos positivos, desde a recuperação de terras até a mitigação de tempestades de areia

Se aplicada a outras regiões áridas, a África, a Mongólia e outras áreas poderiam se beneficiar. A biotecnologia permite a criação de solo onde antes existiam apenas dunas, impactando diretamente a agricultura, a segurança alimentar e a estabilidade social, demonstrando como a humanidade pode enfrentar a desertificação em escala global.

Por Túlio Ribeiro

 

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