Com o slogan “Justiça Já”, o protesto convocado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o próximo domingo (29), na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), às 14 horas, tem como principal objetivo enfraquecer a narrativa de tentativa de golpe de Estado. A estratégia mira os recentes questionamentos sobre a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência da República no governo Bolsonaro, peça central nos inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
Bolsonaro vem intensificando a convocação nos últimos dias pelas redes sociais. No dia 21 ele disse por meio de um vídeo na rede social X: “O Brasil precisa de todos nós. É por liberdade, por Justiça”. A mensagem, com tom eleitoral, foi acompanhada de críticas à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), destacando dados negativos, tais como inflação, especialmente a alta dos alimentos e cortes na saúde. O vídeo foi embalado pela música “Volta, capitão”, que pede o retorno de Bolsonaro ao poder. Por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro está inelegível até 2030.
Segundo o cientista político Adriano Cerqueira, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o ato ocorre em meio à crescente pressão internacional contra o ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos no STF. “Bolsonaro busca manter sua base mobilizada em torno da pauta da anistia e da fragilização da delação de Cid, cada vez mais controversa. A estratégia é destacar o caráter político do julgamento”, avalia.
Mas, para o analista político Luiz Filipe Freitas, do escritório Malta Advogados, o ato de domingo deve ter mais impacto político do que jurídico. “A presença de Bolsonaro no centro da manifestação é parte de uma tentativa de reconstrução simbólica. Ao se apresentar como vítima de conspiração, ele reorganiza sua base e projeta alianças, como com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de olho em 2026”, afirma.
Segundo o analista, a reação de Bolsonaro à delação de Cid marca um novo ciclo de enfrentamento político, agora em campo aberto.
Por Aline Rechmann