Países da América Latina surfam na onda conservadora

José Raimundo
6 Min Leitura

Analisando o processo histórico na política da América Latin, percebe-se uma dicotomia de forma ápices entre esquerda e direita, entretanto, nos movimentos mais recentes no tempo atual a guinada conservadora também foi moldada pela influência indireta de modelos estadunidenses. Na última década, a Argentina tornou-se um indicador político para a região: quando seu eleitorado escolhe um governo de esquerda ou de direita, a maioria dos países vizinhos tende a se inclinar para a mesma ideologia. No início da presidência de Alberto Fernández , por exemplo, a região vivenciava uma onda progressista: Bolívia, Peru, Chile, Colômbia e Brasil eram governados por forças de esquerda, enquanto apenas Paraguai, Equador e Uruguai mantinham administrações conservadoras. Esse panorama mudou com a chegada de Javier Milei; o pêndulo oscilou na direção oposta com Milei tornou-se uma figura de destaque da direita colocando em prática estratégia de ruptura sistêmica total, semelhante à empregada por Donald Trump nos Estados Unidos. Sua metáfora da “motosserra”, que visa desmantelar as estruturas estatais e econômicas tradicionais, resume seu projeto de transformação radical. Sua vitória nas eleições legislativas de meio de mandato de 26 de outubro, que ampliou sua influência no Congresso, reflete um padrão observado em Trump: líderes que mobilizam emoções e frustrações populares para fortalecer sua base.
A conjuntura se repete no Chile com José Antonio Kast com perfil e uma agenda marcada pelo controle da imigração e pela segurança, uma abordagem que lembra as políticas de Donald Trump nos Estados Unidos. Desde o início de sua campanha para as eleições chilenas, e agora no segundo turno, Kast busca limitar a entrada de imigrantes indocumentados. Seu discurso se concentra em políticas de segurança rigorosas, controle da imigração e valores conservadores. Sua retórica atingiu o ápice punitivo durante uma mensagem a imigrantes indocumentados na fronteira de Chacalluta, com um tom muito semelhante ao popularizado por Trump. “Vocês têm 111 dias para deixar o Chile voluntariamente.
Onda conservadora também alcançou à Bolívia, que elegeu Rodrigo Paz como presidente após duas décadas de hegemonia do Movimento para o Socialismo (MAS). A pior crise econômica em 40 anos e a erosão política do projeto de Evo Morales alimentaram uma votação pela ruptura. Um grande golpe para a esquerda e oportunidade para retomar as relações entre a Bolívia e o governo Trump. O novo presidente impôs medidas concretas de ruptura, como o fechamento do Ministério da Justiça, que, segundo o presidente, busca garantir a independência judicial e impedir que o ministério seja usado para perseguição política.
A direita peruana entra em 2026 em terreno favorável, embora ainda fragmentada. Segundo o CPI, 22,9% dos peruanos acreditam que o próximo presidente deve ser da direita moderada. Esse crescimento ocorre em um contexto de erosão institucional e instabilidade prolongada, o que abre espaço para propostas conservadoras, ainda que sem uma liderança dominante. Um neoliberalismo herdado do fujimorismo e em um moralismo religioso extremo que transforma sua vida privada, incluindo a autoflagelação, em uma tentativa de legitimar um projeto conservador. Sua agenda “pró-família” e “pró-empreendedorismo” mobiliza católicos conservadores e neopentecostais que reagem contra o feminismo e o movimento LGBTQ+.
No Equador, a reeleição de Daniel Noboa consolidou um governo de direita, mas o recente referendo mostrou que seu apoio não é absoluto. A população lhe deu as costas nesta votação crucial, refletindo as limitações da direita conservadora diante do descontentamento social e da mobilização dos setores indígenas e populares. O populismo com lideranças indígenas e sociais cresce como uma força de pressão, desafiando políticas consideradas neoliberais ou excludentes. Mirando Paraguai, Santiago Peña consolidou a direita após o governo de Mario Abdo Benítez, também um líder de direita. Seu governo gerou tensões internacionais, especialmente com a Venezuela, que se voltou contra ele devido ao seu apoio explícito a líderes da oposição, como Edmundo González. O Paraguai mantém uma posição alinhada com os destacamentos militares dos EUA no Caribe e reforçou a agenda de segurança regional.

O grande nome que desponta como padrão de segurança e transformação, o presidente salvadorenho Nayib Bukele tornou-se uma figura simbólica para setores conservadores na América Latina graças à sua política de segurança de “mão de ferro”. Segundo o The Guardian, sua estratégia contra gangues, criticada por organizações de direitos humanos, conquistou a admiração de grupos conservadores que veem seu modelo como uma demonstração de eficácia no combate ao crime. O “método Bukele” emerge como um elemento-chave nas promessas preliminares dos pré-candidatos à presidência do Peru, que veem a segurança como o foco central do próximo ciclo eleitoral de 2026. A ideia de prisões altamente controladas, punições exemplares e policiamento ampliado se configura como um tema recorrente nas futuras campanhas. Seu apelo reside na narrativa de resultados rápidos diante da crise da criminalidade, embora sua implementação prática enfrente limitações institucionais e legais.

Túlio Ribeiro é economista, mestre em história e doutor em política estratégica

 

Compartilhe este artigo