Flávio Bolsonaro quer o Brasil de volta ao lado de Israel e deseja que as forças evangélicas e conservadoras que estão remodelando a América Latina vejam Israel como um símbolo de valores e inimigos em comum.
Flávio Bolsonaro não entrou na conferência antissemita “Geração da Verdade” como um senador visitante. Ele entrou como um presidente. Sua comitiva era enorme. Seguranças empurravam a multidão para trás, assessores acompanhavam o ritmo, celulares surgiam por todos os lados. A cada poucos passos, alguém tirava uma selfie. Olim (imigrantes) brasileiros rondavam por perto com aquele sorriso que as pessoas reservam para casamentos e gols da Copa do Mundo. Alguns sussurravam que chegar perto dele era como encontrar a realeza brasileira, só que a coroa havia sido substituída por um terno, e o tapete vermelho era o carpete do corredor da Binyanei HaUma.
Parte do magnetismo era político, parte era visual. Bolsonaro é a cópia fiel de seu pai, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, só que mais jovem. O mesmo rosto, as mesmas expressões, uma silhueta familiar para qualquer um que tenha acompanhado o recente drama brasileiro pelas telas.
Seu irmão mais novo, Eduardo, sentia-se mais à vontade em inglês e preenchia as lacunas com anedotas e comentários. Mesmo assim, a dinâmica entre eles permanecia constante. Eduardo olhava para Flávio com visível respeito, a postura de um homem que sabe quem é o líder, mesmo que seja ele quem mais fala.
Sentei-me com eles à margem da conferência, organizada pelo Ministério de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo de Israel e anunciada como um encontro global para confrontar o antissemitismo e a negação do Holocausto – liderada pelo Ministro Amichai Chikli
Flávio trouxe uma mensagem feita sob medida para o público israelense e para os judeus americanos que liam de longe: ele quer o Brasil de volta ao lado de Israel, quer que a política externa brasileira se desvincule da visão de mundo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e quer que as forças evangélicas e conservadoras que estão remodelando a América Latina vejam Israel como um símbolo de valores e inimigos em comum.
Amizade entre Brasil e Israel
É difícil separar esta entrevista do contexto da relação Brasil-Israel que a precedeu. Sob o governo Lula, essa relação entrou em conflito público. Em fevereiro de 2024, Lula comparou a guerra de Israel em Gaza ao Holocausto. Israel o declarou persona non grata. O Brasil retirou seu embaixador do poder e, em maio de 2024, Lula o destituiu do cargo.
A disputa não se limitou à retórica. Posteriormente, o Brasil aproximou-se do bloco de Estados ativistas, exercendo pressão jurídica e diplomática sobre Israel, incluindo medidas relacionadas ao caso da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
É esse o clima político que Flávio Bolsonaro está tentando reverter. Ele classificou Lula como aliado de “ditadores” e apontou o Irã como um símbolo da direção que o governo atual está tomando. Descreveu a política externa de seu governo como pautada por valores, ancorada em “valores judaico-cristãos”, com o Brasil estabelecendo parcerias com democracias e países que compartilham uma visão de mundo centrada na soberania nacional, na liberdade de expressão e em normas sociais conservadoras.
Em seguida, ele adotou uma postura política clara. A melhor coisa que o Brasil pode fazer para combater o antissemitismo, disse-me ele, é destituir Lula. A própria conferência facilitou esse tipo de mensagem política. “Geração da Verdade” foi apresentada como uma cúpula internacional séria e oficial, com mesas-redondas sobre o antissemitismo global e a onda de violência após 7 de outubro.
O evento também foi alvo de críticas, inclusive pela presença de certas figuras da extrema-direita europeia e pela forma como confundiu a luta contra o antissemitismo com a construção de alianças políticas.
Essa tensão era parte do pano de fundo no corredor: diplomatas passando por ativistas, políticos posando para fotos e a sensação de que todos estavam ali com duas agendas, uma pública e outra pessoal. A agenda pública de Flávio Bolsonaro era a solidariedade com os judeus e Israel. Sua agenda pessoal era construir um caminho plausível para a presidência do Brasil.
A Reuters noticiou em dezembro que Flávio afirmou que seu pai o apoiou para uma candidatura à presidência no ano seguinte, enquanto a direita brasileira debate o candidato mais forte para enfrentar o campo de Lula.
Isso é importante porque a queda política de Jair Bolsonaro deixou um vácuo na direita brasileira. Flávio se apresenta como herdeiro, ao mesmo tempo que tenta parecer algo mais do que “filho de”. Em Jerusalém, ele explorou ambas as identidades. Usou a marca da família e se apresentou como um futuro chefe de Estado.
Evangélicos, judeus e a nova matemática religiosa da América Latina. Flávio e Eduardo se apoiaram fortemente na linguagem evangélica. Flávio chamou o Brasil de um “país cristão e judeu” construído sobre valores compartilhados. Falou sobre família, fé, direitos humanos, democracia e liberdade de expressão. Eduardo foi mais incisivo: apoiar Israel é “a coisa certa a fazer”, um princípio que transcende negociações e a política do dia a dia.
Essa retórica encontra eco em uma América Latina que está passando por mudanças religiosas, embora permaneça intensamente religiosa na prática.
Um novo relatório do Pew Research Center, publicado na semana passada, constatou que a filiação ao catolicismo diminuiu na América Latina na última década em seis grandes países pesquisados: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. Em cada um deles, a porcentagem de católicos caiu pelo menos nove pontos percentuais, enquanto a porcentagem de adultos sem religião aumentou pelo menos sete pontos.O Brasil é um exemplo notável. O Pew constatou que cerca de 46% dos adultos brasileiros se identificam como católicos, 29% como protestantes e cerca de 15% não têm religião.
Ainda assim, a crença permanece extremamente alta. O Pew constatou que 98% dos adultos brasileiros entrevistados dizem acreditar em Deus, e a prática da oração diária no Brasil está entre as mais altas da região.
Entrevista ao Jerusalém PostEste é o ponto crucial para a política: a filiação religiosa está se tornando mais flexível, mas a energia religiosa permanece forte. Na prática, isso favorece grupos que se organizam bem, se mobilizam bem e se comunicam bem. Os evangélicos geralmente fazem as três coisas e, cada vez mais, tratam Israel como um símbolo de identidade dentro de uma guerra cultural mais ampla. Se alguém duvida do quanto isso se estende além do Brasil, basta olhar para o norte. O Pew Research Center também observou que menos hispânicos nos EUA se identificam como católicos hoje do que há uma década.
Essa é a corrente maior na qual Flávio estava imerso. A campanha de Bolsonaro está vendendo uma narrativa sobre que tipo de civilização a América Latina deveria ser e quem deveriam ser seus amigos.
Embaixada em Jerusalém e uma promessa atrelada a 2027. Então veio a promessa mais concreta.Flávio disse ao The Jerusalem Post que, se eleito, transferiria a embaixada do Brasil para Jerusalém nos primeiros seis meses de seu mandato.

Eduardo também falou sobre os “Acordos de Isaac”, uma iniciativa ligada ao esforço do presidente argentino Javier Milei para fortalecer os laços entre Israel e a América Latina. A Fundação Prêmio Genesis descreve os Acordos de Isaac como uma visão para aprofundar os laços econômicos, culturais e diplomáticos entre Israel e a América Latina, inspirada no espírito dos Acordos de Abraão.
A escolha do nome é deliberada. O objetivo é soar familiar aos leitores americanos e sinalizar uma versão do Hemisfério Ocidental de normalização, parceria e alinhamento público com Israel.
A equipe de Flávio parece entender que os símbolos impulsionam a política. A mudança de uma embaixada é um símbolo com peso diplomático imediato. Os “Acordos de Isaac” são um símbolo com valor de marca a longo prazo. Ambos são concebidos para contar a mesma história: a direita brasileira quer fincar uma bandeira, e quer que essa bandeira seja fincada em Jerusalém.
O “Estado profundo” e a queixa contra a mídia. Em certo momento, a conversa derivou para o território familiar da família: desconfiança nas instituições, raiva da mídia, suspeita de sabotagem.

Eduardo contou uma história sobre um café da manhã durante a presidência de seu pai, em 2019, em que um jornalista sentou-se perto e relatou detalhes da conversa, incluindo algo trivial sobre a ortografia portuguesa. O ponto da história não era a ortografia. O ponto era o clima. Ele queria que os israelenses reconhecessem a música porque eles têm sua própria versão dela: a sensação de que sistemas, mídia, tribunais e burocracias se unem contra um movimento.
Essa queixa funciona muito bem para um político online.Em 2026, a política se tornou grupos de WhatsApp, canais do Telegram, vídeos de influenciadores e vídeos curtos desprovidos de contexto e manipulados para gerar emoção. Nesse mundo, Israel se torna um objeto de conteúdo. Uma selfie com Flávio Bolsonaro se torna um sinal para sua base. Um vídeo sobre a mudança da embaixada se torna um teste de lealdade. Uma citação sobre “valores judaico-cristãos” se torna um marcador de identidade compartilhável.
Mesmo nos corredores da conferência, era possível sentir a lógica: a selfie se tornou um trunfo político.

Flávio também apresentou os próximos anos como uma abertura mais ampla da direita na América Latina, insinuando uma onda regional e uma chance de remodelar o alinhamento do hemisfério.É nessa parte do discurso que Israel, a América Latina e os EUA se cruzam.
No Brasil de Lula, Israel tornou-se alvo de condenação moral e pressão legal.Na visão de mundo de Bolsonaro, Israel se torna um aliado civilizacional e uma forma de sinalizar participação na comunidade global.
Ainda assim, Jerusalém ofereceu uma prévia da estratégia de comunicação internacional da campanha brasileira: tratar o apoio a Israel como um eixo moral, enquadrar a solidariedade evangélica como uma ponte, definir Lula como alinhado a regimes hostis e vender uma promessa clara que caiba em uma faixa.
O aspecto mais revelador da visita de Flávio Bolsonaro a Jerusalém não foi a promessa de reabrir a embaixada, nem mesmo o discurso sobre os Acordos de Isaac. Foi a facilidade com que ele transformou Israel em um instrumento para a luta interna do Brasil.
Para o seu grupo, Israel é a história de uma democracia sitiada que se recusa a ceder. É também um palco conveniente para demonstrar força, fé e certeza civilizacional. Isso funciona bem nas redes sociais e numa região onde a identidade religiosa está em transformação, embora a crença permaneça intensa.
Os israelenses precisam entender o que estão vendo. Um político brasileiro veio a Jerusalém e foi tratado como um futuro presidente. Tirou selfies como uma celebridade. Foi abraçado por imigrantes ávidos por reconhecimento. Fez promessas que agradariam à direita israelense e irritaram grande parte do meio diplomático brasileiro.
A questão que se segue é maior do que a Flávio Bolsonaro. A América Latina está passando por uma reconfiguração religiosa, política e midiática. Líderes que entendem de símbolos e organizam fiéis podem transformar a política externa em política identitária. Israel ocupa um lugar cada vez mais central nessa narrativa, ora como aliado, ora como vilão, frequentemente como instrumento.
Se o Brasil pender para a direita em 2026, Israel sentirá as consequências. Se permanecer alinhado com Lula, Israel continuará pagando o preço de ser um campo de batalha moral na guerra interna de outro país.
E se Flávio Bolsonaro se tornar presidente, as selfies de Jerusalém parecerão menos comportamento de fã e mais imagens de campanha antecipada para um novo capítulo nas Américas.
Reprodução da entrevista ao Jerusalém Post