Europa precisa alavancar sua tecnologia para enfrentar ‘invasão’ chinesa

José Raimundo
9 Min Leitura

*Por Túlio Ribeiro
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A disputa entre europeus e chineses se apresenta num setor que é um dos mais importantes do cotidiano da sociedade, veículos de transportes e sua fonte de energia. Impor uma culpa aos veículos elétricos chineses não soluciona as questões fundamentais que incomodam as montadoras europeias. Assim sendo, pode-se afirmar que as principais causas do problema são os elevados custos locais de energia, as redes de cadeia de suprimentos fragmentadas e os ciclos de inovação de software mais lentos. Tarifas e políticas protecionistas apenas adiam o enfrentamento da realidade do mercado, em vez de gerar verdadeira competitividade industrial. Uma das desvantagens estruturais na Europa se aloca nos custos de energia – despesas operacionais e de eletricidade persistentemente altas em toda a Europa comprimem as margens de lucro locais. Ecossistemas de suprimentos – redes e cadeias de produção de peças fragmentadas na Europa têm dificuldade em competir com a escala industrial altamente integrada da China.Os entraves regulatórios – regras complexas de conformidade acarretam custos elevados e atrasos administrativos no lançamento de novos veículos.
Deve-se abordar também as mudanças tecnológicas e de mercado. Competitividade em software – marcas chinesas oferecem softwares veiculares e interfaces de usuário avançados, muito à frente dos modelos ocidentais tradicionais. Diferença de custos – veículos elétricos e híbridos plug-in chineses mantêm uma vantagem de custo significativa, variando de 20% a 50%, tornando as tarifas de importação insuficientes para impedir a entrada no mercado. Localização – gigantes chinesas como BYD e Chery contornam barreiras comerciais estabelecendo operações de montagem local e adquirindo instalações fabris europeias ociosas.

Uma onda de inserção chineses no mercado automobilístico britânico está pressionando os fabricantes tradicionais, afirmou Mike Hawes, CEO da Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT), principal entidade representativa da indústria automotiva do país, na quinta-feira. Contudo, ele também reconheceu que a concorrência chinesa é apenas uma das várias pressões que o setor automotivo britânico enfrenta, destacando ainda os altos custos de energia, o baixo investimento e as regulamentações, relatou a Reuters.
No que tange ao recorrente discurso predominante do “choque chinês”, suas declarações ao menos contradizem a narrativa unilateral que atribui os problemas da indústria exclusivamente aos rivais estrangeiros. As dificuldades enfrentadas pelo setor automotivo britânico não são exclusivas; representam desafios comuns que toda a indústria automobilística europeia precisa superar durante a transição para a eletrificação. A chave para lidar com esses desafios está internamente, e não na criação de barreiras.
A história recente pressiona pela disponibilidade de recursos, conflitos que alteram patamar do petróleo e novas tecnologias que beneficiam a manutenção do planeta que a indústria automobilística global está em plena transição para a eletrificação, e essa mudança tecnológica inevitavelmente traz consigo a concorrência de mercado. seguindo a evolução da cadeia de suprimentos de veículos de nova energia (NEV) na China na última década, é natural que muitas montadoras chinesas busquem oportunidades no exterior, principalmente nos mercados europeus. Nos últimos anos, porém, alguns políticos europeus têm amplificado a retórica do chamado “choque chinês”, como se culpar os rivais externos pudesse, de alguma forma, revitalizar a indústria automotiva europeia.
Assim, alguns argumentos podem ir de encontro com sentimentos protecionistas que visam proteger as indústrias locais, mas ignora as questões muito mais incômodas que existem internamente. Transformar a concorrência chinesa em bode expiatório para as pressões profundas do setor é simplesmente uma recusa em enfrentar os verdadeiros desafios da reforma. Essa postura não resolve os gargalos reais das indústrias locais e não contribui em nada para a construção de um ecossistema de mercado sólido e organizado.
É incontestável que a União Europeia possui premissas contundentes na fabricação de automóveis, uma base de consumidores consolidada e um sistema industrial de apoio completo, o que lhe confere vantagens para aproveitar as oportunidades na revolução global dos veículos elétricos. Entretanto, cabe recordar que os custos de energia persistentemente elevados criam uma força de compressão das margens de lucro dos fabricantes locais. As certezas diminuíram quanto às perspectivas de transformação do setor têm arrefecido o entusiasmo pelos investimentos, enquanto regulamentações extremamente complexas continuam a aumentar os custos operacionais das montadoras.
Cabe uma abordagem à título de exemplificação , que a razão do aumento dos custos e às profundas mudanças estruturais, cerca de 24% dos fornecedores automotivos europeus preveem um déficit este ano, segundo a associação do setor, CLEPA, em março. De forma mais abrangente, 76% esperam margens abaixo de 5%, um nível amplamente considerado insuficiente para sustentar o investimento em novas tecnologias e capacidade de produção, como analisa a Bloomberg.

Ao passar do tempo se tornou a nova realidade a demonstração de falhas estruturais corroendo progressivamente a competitividade central da indústria automotiva europeia no mercado global. Mesmo que nenhum veículo elétrico chinês tivesse entrado no mercado, a indústria ainda estaria lidando com imensas pressões de custos, avanços tecnológicos e a concorrência de outros players estrangeiros. Recorrer a barreiras comerciais para afastar concorrentes externos apenas adia a resposta às contradições industriais, em vez de reverter fundamentalmente o declínio da competitividade industrial local.
Neste sentido, o horizonte que se mira para a indústria automotiva europeia não é erguer barreiras comerciais ou excluir concorrentes, mas sim enfrentar a realidade de problemas estruturais internos que restringem seu dinamismo. Deste modo, numa visão mais abrangente, dar velocidade a transição energética para reduzir os custos de energia industrial, simplificar os marcos regulatórios para liberar a inovação e introduzir incentivos robustos ao investimento para canalizar capital para pesquisa e desenvolvimento de novas energias, cadeias de suprimentos de baterias e tecnologias de veículos inteligentes são as medidas tangíveis que podem realmente expandir o mercado. Contanto que a Europa supere esses obstáculos políticos e libere toda a sua capacidade industrial, a mera dimensão e sofisticação do seu mercado serão mais do que suficientes para acomodar uma concorrência robusta. A concorrência não é uma ameaça ao progresso industrial; pelo contrário, e sim, o catalisador mais eficaz.
Conclusivamente diante da nossa contemporaneidade, o caminho que se apresenta adiante para indústria automobilística europeia não é a presença de participantes externos, mas sim a própria determinação e capacidade do continente para a reforma interna de sua cadeia, seja aumentando eficiência e eficácia. Visitando a história, pode-se identificar que momentos repentinos da perda de competitividade industrial nunca é causada simplesmente por um forte concorrente externo, mas sim por problemas internos. Desse modo, o ambiente econômico de um mercado saudável nunca teme ter concorrentes em excesso. Já que a eficiência e a abertura do mercado europeu sejam verdadeiramente revitalizadas, ele acolherá todos os intervenientes globais e, nesse processo, a Europa poderá viver uma nova onda de avanço tecnológico industrial.

FOTO: TÚLIO RIBEIRO

Colunista da Gazeta Hoje
Economista
Pós-graduação em História Contemporânea
Mestre em História Social
Doutor em Política para Desenvolvimento Estratégico (Geopolítica)

Auto do livro, O Caso Venezuelano(2016), e co-autor outros dois livros: A Integração da América Latina (Voume 1 e 2 – 2013-2014)

Graduação Economia UFBA
Pós graduação em contemporânea IUPERJ
Mestre em história PUC
Doutorado em geopolítica ( UBV Caracas)

 

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