*Por Túlio Ribeiro
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Uma das ferramentas de controlar a geopolítica é quem consegue pautar o mercado financeiro e os meios de pagamento nas transações internacionais. Assim, quem controla os meios de pagamento globais mais facilmente lidera a geopolítica e amplia o seu poder no comércio mundial, porque detém o poder de moldar parâmetros de quem pode comprar, vender e prosperar no cenário internacional. A infraestrutura financeira ocidental atua como um mecanismo central de governança global e projeção de poder geopolítico através de algumas premissas.
O poder do dólar e da infraestrutura ocidental se mostra um armamento financeiro. O controle sobre redes como o SWIFT permite que potências ocidentais excluam países inteiros do comércio internacional, como ocorreu com o Irã e a Rússia. Jurisdição extraterritorial. Quase toda transação liquidada em dólares passa pelo sistema compensatório dos Estados Unidos, sujeitando governos estrangeiros às leis estadunidenses. Uma situação importante é a das sanções secundárias. Neste contexto, empresas de terceiros países são forçadas a escolher entre negociar com nações sancionadas ou manter acesso ao mercado financeiro ocidental.
A reação geopolítica e a fragmentação global podem gerar uma ação de redes alternativas. Para compreender este estratagema, cabe abordar, a título de exemplificação, os países do bloco BRICS, que expandem sistemas próprios, como o CIPS chinês e o SPFS russo, para blindar suas economias de sanções ocidentais.
O grande objetivo é a desdolarização para nações que almejam maior independência no raio econômico, se distanciando do poder dos EUA. Neste sentido, estas aumentam o uso de moedas locais, como o yuan e o rublo, em contratos bilaterais de energia e commodities para reduzir a dependência do dólar. Uma das formas são as moedas digitais (CBDCs). Portanto, o desenvolvimento de moedas digitais de bancos centrais cria canais de pagamento diretos e criptografados de governo para governo, eliminando intermediários ocidentais. Um contraponto ao poder financeiro estabelecido após a Segunda Guerra Mundial.
Seguindo neste raciocínio, a segunda potência mundial, a China, está acumulando e estruturando cofres físicos para o metal. O objetivo é usar uma convertibilidade maior em ouro para reforçar sua moeda e a de seus principais parceiros na utilização e confiabilidade do yuan. Significa, então, que a gigante asiática quer espalhar cofres de ouro pelo mundo para reforçar o papel do yuan, aumentar a credibilidade de sua moeda no comércio global e diminuir a dependência do dólar estadunidense.
O Banco Popular da China troca títulos da dívida dos Estados Unidos por ativos físicos e seguros, protegendo-se contra sanções. Cabe destacar que o congelamento de reservas da Rússia por países ocidentais mostrou a Pequim o risco de usar o dólar como arma geopolítica. Então, a força para o yuan é lastrear e respaldar a economia com reservas metálicas pesadas, elevando a confiança de parceiros comerciais em aceitar o yuan nas transações internacionais e na emissão de títulos. Temos como exemplo o Brasil, que fez sua primeira emissão de títulos em yuan.
Esta estratégia fomenta uma segurança em crises, sendo o metal precioso um amortecedor financeiro livre de controle estrangeiro em cenários de conflito.

Dando voz ao mercado atual, segundo um relatório da S&P Global Ratings divulgado na terça-feira (25/8), a China está construindo uma rede global de cofres de ouro e acelerando as compras de reservas do banco central como parte dos esforços para promover o papel do yuan no comércio internacional.
Nesta análise, espera-se que as mineradoras de ouro chinesas, como a Zijin Mining, maior processadora de ouro do continente, e a Shandong Gold Mining, se expandam “mais rapidamente do que a maioria de seus concorrentes globais”, depois que Pequim reclassificou o ouro de ativo financeiro para “mineral estratégico”, em 2025.
“Se você negocia em renminbi (yuan), sempre surge a questão de como vai usar essa moeda”, disse Charles Chang, líder da área corporativa da S&P Global Ratings para a Grande China. “Mas se esse renminbi for conversível em ouro, o cenário pode ser diferente. O ouro é negociável. Ele pode ser usado em muitos lugares.”
A China continental lançou seu primeiro cofre offshore para entrega de ouro em Hong Kong no ano passado, em virtude de um acordo com a Bolsa de Ouro de Xangai (SGE), tendo o Banco da China (Hong Kong) como operador designado. Isso também poderia atrair países que buscam diversificar, armazenando ouro em território nacional ou próximo a ele, para aumentar o controle.
Juntamente com o lançamento, a SGE listou dois novos contratos de ouro denominados em yuan, que podem ser liquidados por meio de entrega física ou liquidação financeira. Como reportam notícias da imprensa oriental, outras cidades consideradas para a rede de cofres da China incluem centros de comércio de ouro como Singapura, Kuala Lumpur, Dubai, Riade e Moscou.
“A rede oferece conectividade ao maior mercado físico de ouro do mundo”, disse Chang. “Ela também pode atrair países que buscam diversificar, armazenando ouro em território nacional ou próximo a ele, para aumentar o controle.”
Os dados da S&P Global Ratings mostraram que as reservas privadas de ouro na China cresceram lentamente e permaneceram menores em relação às reservas oficiais do Estado. As reservas de ouro da China ocupam o sexto lugar no ranking mundial, atrás das dos EUA, França, Itália, Alemanha e Rússia, uma posição que, segundo Chang, indica “um desejo de aumentar ainda mais as reservas por meio de compras ou produção”, à medida que as tensões e os conflitos internacionais continuam a surgir.
Desta forma, a China otimiza o sistema de convertibilidade, aumenta as cadeias de transações em sua moeda, fortificando-se economicamente, ganhando mercado e ofertando crédito, desde que usem seus títulos ou moeda. O desdobramento é avançar economicamente via laços econômicos que aumentam sua segurança em qualquer processo de sanções, muito usado pelos Estados Unidos em conflitos com gigantes asiáticos e seus parceiros, como Irã, Coreia do Norte e Rússia.
No final de julho, as reservas de ouro da China totalizaram 76,08 milhões de onças, marcando o 21º mês consecutivo de acumulação. No ano passado, os nove principais departamentos governamentais do país, incluindo a principal agência de planejamento econômico da China, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, publicaram um plano industrial para melhorar a segurança, a capacidade, as operações, a inovação, a escala e os recursos de mineração da indústria do ouro, de acordo com o relatório.
Apoiadas pelo governo e pela forte demanda interna por barras e moedas de ouro, as mineradoras de ouro chinesas aceleraram as fusões e aquisições no exterior. Neste sentido, a Zijin Gold International, uma unidade da Zijin Mining, adquiriu mais duas minas no último ano — em Gana e no Cazaquistão —, ambas já lucrativas, contribuindo para um aumento de 179% no lucro líquido da empresa no primeiro semestre, atingindo US$ 1,45 bilhão em 2026.
A desdolarização rápida ainda é uma ilusão devido à profundidade do mercado. Já a demanda por títulos mostra que os EUA não têm rival em tamanho e liquidez. Investidores buscam a previsibilidade jurídica e financeira estadunidense. Podemos destacar o uso majoritário na comercialização de petróleo, e as principais commodities globais ainda são cotadas em dólares. Entretanto, existe um caminho e sinais para uma cesta de moedas.
Essa é uma análise cirúrgica e muito realista sobre o cenário macroeconômico atual. Para que a China consiga desafiar a hegemonia do dólar, ela precisa focar nas fundações do seu próprio ecossistema financeiro. A convertibilidade em ouro é um dos pilares decisivos neste horizonte. A China é a maior exportadora de bens do mundo. O yuan ainda representa uma fração das transações globais. O comércio de bens físicos domina o uso do yuan atualmente; entretanto, iniciou-se uma mudança para valorizar o uso da sua moeda nacional.
O setor de serviços chinês ainda carece de projeção global estruturada. O caminho, além da fortificação das reservas em ouro, é ampliar a exportação de tecnologia, turismo e softwares em yuan. Um foco na liquidez internacional, permitindo que parceiros comerciais acumulem e usem a moeda sem restrições severas. A redução de limites flexibiliza o controle de capitais para gerar mais confiança global. E, dentro deste contexto, fortalecer o sistema CIPS (sistema de pagamentos chinês) frente ao SWIFT.
Assim, a estratégia para o ouro, com uma rede global chinesa de cofres, reforçaria o papel do yuan no comércio. Ao ancorar as negociações do yuan ao ouro por meio de Hong Kong e de novos cofres globais, Pequim aumentará a conversibilidade de sua moeda.
Desta forma, são linhas econômicas que devem seguir caminho que leve a China a uma independência financeira no que tange às transações e à fluidez de seus títulos. Este processo chinês pode, no futuro, gerar uma cesta de formas de pagamentos e moedas que possam equilibrar mais proporcionalmente a relação entre as nações. Mesmo que não alcance a substituição do dólar, pode converter a moeda estadunidense de hegemônica em mais associativa no mundo.

FOTO: TÚLIO RIBEIRO
Colunista da Gazeta Hoje
Economista
Pós-graduação em História Contemporânea
Mestre em História Social
Doutor em Política para Desenvolvimento Estratégico (Geopolítica)
Auto do livro, O Caso Venezuelano(2016), e co-autor outros dois livros: A Integração da América Latina (Voume 1 e 2 – 2013-2014)
Graduação Economia UFBA
Pós graduação em contemporânea IUPERJ
Mestre em história PUC
Doutorado em geopolítica ( UBV Caracas)