Caso Vorcaro: “maleta espiã” da PF quebra criptografia, invade nuvem e recupera arquivos

José Raimundo
8 Min Leitura

Por Aiuri Rebello (Gazeta do Povo)

Desde o final da semana passada, tem causado perplexidade no país inteiro as revelações trazidas à tona com a divulgação oficial e o vazamento de parte do conteúdo dos celulares apreendidos pela Polícia Federal (PF) do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em meio a suspeitas de fraudes. Enquanto o banco passava por momentos difíceis antes da liquidação, Vorcaro vivia um estilo de vida nababesco, com viagens milionárias e compra de imóveis de luxo no Brasil e no exterior.

As mensagens, arquivos e contatos apreendidos nos celulares de Vorcaro também revelam trânsito fluído nas mais altas esferas dos Três Poderes no país, e indicam relação próxima com nomes influentes da política e do Poder Judiciário. Vorcaro foi preso preventivamente no final da segunda-feira passada após ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu o caso do Banco Master no lugar de Dias Toffoli.

O caso está sob sigilo na Corte Suprema. Os advogados do ex-banqueiro têm protestado contra o vazamento do conteúdo do inquérito contra ele para a imprensa. Eles também afirmam que Vorcaro é inocente de todas as suspeitas, e que não houve nenhuma fraude no Banco Master. Nesta segunda-feira (9), os advogados divulgaram uma nota informando que pediram ao STF acesso ao cliente sem gravação das conversas — procedimento de praxe no presídio federal de Brasília onde ele está preso.

Como funciona a tecnologia que recupera dados apagados de celular

A análise do conteúdo de celulares apreendidos em operações da PF no Instituto Nacional de Criminalística envolve uma série de ferramentas que permitem acessar os dados mesmo quando os aparelhos estão bloqueados por senhas, desligados e até quando as informações foram excluídas do dispositivo. O processo de extração e posterior análise dos dados de celulares é feito por meio de programas que garantem, inclusive, a rastreabilidade de mensagens de visualização única e de arquivos apagados.

Uma das ferramentas mais usadas é o UFED (dispositivo de extração forense universal, em tradução livre da sigla em inglês), da empresa israelense Cellebrite. Trata-se de uma espécie de “maleta espiã” que reúne um conjunto de hardwares e softwares capazes de invadir celulares e extrair informações como lista de contatos, fotos, áudios, vídeos e histórico de e-mails, navegadores e páginas de busca, além de conversas e informações em aplicativos como WhatsApp, Instagram e outras redes sociais.

Com auxílio do equipamento, a extração dos dados é feita independentemente do uso de senhas e criptografia — a análise dos dados é feita com a ajuda de softwares complementares.

Reportagem da Gazeta do Povo já acompanhou o funcionamento da “maleta espiã”

A reportagem da Gazeta do Povo já teve a oportunidade de observar ao vivo o funcionamento da “maleta espiã” em uma demonstração do representante comercial do fabricante, em São Paulo. É possível recuperar dados apagados, incluindo mensagens em aplicativos.

Também ficam disponíveis para os investigadores todos os dados que estejam nas “nuvens” do usuário acessadas a partir do celular, além de todos os registros do GPS e em antenas de sinal de telefonia espalhadas pela cidade.

Este tipo de equipamento é capaz de invadir praticamente qualquer celular ou tablet de qualquer geração: de iPhones da Apple a telefones que usam o sistema operacional Android, do Google, passando por diversas marcas e sistemas operacionais menos conhecidos, a maioria chineses.

A tecnologia não funciona à distância: é necessário que o aparelho celular seja conectado fisicamente à maleta para a invasão ser concretizada, por meio de uma série de cabos especiais. A PF usa os equipamentos, que são atualizados constantemente, pelo menos desde 2012, a um custo anual milionário para renovação das licenças de uso após a aquisição dos equipamentos.

Relatórios forenses são auditáveis para serem aceitos como provas

O programa utilizado na análise dos dados também cruza dados de vários aparelhos e é capaz de dizer quem conversou com quem, quando e até puxar pelos registros do GPS os lugares por onde os aparelhos analisados passaram e se estiveram juntos. Os relatórios forenses são auditáveis e certificados dentro de parâmetros internacionais e da legislação brasileira para que as informações obtidas por meio deles sejam aceitas como provas em tribunais.

Mesmo quando é utilizado o recurso de visualização única em aplicativos de mensagens, ainda é possível conseguir recuperar o material com este tipo de  ferramenta. De acordo com as investigações, Vorcaro utilizava uma técnica para tentar evitar que a troca de mensagens em si ficasse facilmente acessível: enviava capturas de tela de anotações feitas no seu bloco de notas aos remetentes no formato de visualização única.

“Quando você apaga ou manda uma informação, ou manda uma informação em visualização única, cria, apaga ou envia um arquivo, os registros de que isso tudo aconteceu ficam no dispositivo eletrônico, são os chamados metadados”; afirma à Gazeta do Povo o perito especialista em crimes digitais Wanderson Castilho.

“Essa forma de comunicação por prints deixa diversos rastros no celular: cria-se um documento no bloco de notas, tira-se foto dele e envia-se ele por um aplicativo de mensagens. Mesmo que tudo seja apagado, diversos registros destas operações todas ficam nos metadados. É possível inclusive recuperar a nota ou foto apagados do celular e estabelecer o elo com as mensagens enviadas por meio destas informações extraídas na perícia”, explica o especialista.

Vorcaro conversava com Moraes no dia da prisão, diz jornal

De acordo com o jornal O Globo, o material apreendido no celular do ex-banqueiro inclui diversas trocas de mensagens diretas por WhatsApp com o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Moraes nega qualquer conversa pelo celular com o ex-banqueiro (leia mais abaixo), e afirma que a forma como os documentos estavam organizados — não fica claro se no celular de Vorcaro ou na perícia da PF, e neste caso em qual dos softwares utilizados — também indicam que as mensagens divulgadas pelo jornal não eram destinadas ao ministro.

Nesta segunda-feira, a esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, quebrou o silêncio sobre o caso e divulgou uma nota — em 2024 o escritório de advocacia comandado por ela assinou um contrato que previa o pagamento de R$ 3,5 milhões por mês — R$ 129 milhões no total — durante três anos com o Banco Master, segundo informações do jornal O Globo, que foi encerrado com a liquidação do banco.

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