Fragmentos de rochas esbranquiçadas encontrados na cratera Jezero indicam que Marte pode ter sustentado, durante milhões de anos, um clima quente e úmido, com chuvas persistentes. Os novos dados obtidos pelo rover Perseverance voltaram a colocar o planeta vermelho no centro do debate científico.
Fragmentos compostos por caulinita, um tipo específico de argila, destoam do solo avermelhado típico do planeta e sugerem que o local teve condições semelhantes às de regiões tropicais úmidas da Terra. Na Terra, a caulinita surge após longos períodos de intemperismo químico em clima quente e chuvoso, exigindo grande volume de água líquida circulando pelo solo.
Em Marte, isso indica possíveis “ilhas úmidas” em meio a uma superfície em transição para um ambiente mais seco, com chuvas prolongadas remodelando rochas e minerais ao longo de milhões de anos.
Importante ressaltar que a chuva em Marte é essencial para a busca por vida. No levantamento por vida fora da Terra, a presença de água líquida estável é um dos critérios mais relevantes. Um ambiente com chuvas constantes, lagos e rios em Marte ampliaria o tempo disponível para que organismos simples pudessem surgir, evoluir e deixar sinais detectáveis na rocha.
Assim, regiões com clima semelhante ao de florestas tropicais terrestres tendem a acumular sedimentos em camadas, que podem preservar possíveis sinais biológicos.
No planeta vermelho , esses depósitos seriam alvos prioritários de missões de retorno de amostras, capazes de revelar se o planeta ofereceu um ambiente verdadeiramente habitável em seu passado remoto, como por exemplo:Água duradoura: chuvas por milhões de anos mantêm lagos e rios ativos.Clima mais ameno: temperaturas menos extremas favorecem reações químicas complexas.Rochas argilosas: funcionam como “arquivos geológicos” que podem guardar traços orgânicos. Perseverance identifica sinais de antigo clima tropical em Marte, assim chegando a essas conclusões, os cientistas utilizam um conjunto de instrumentos a bordo do Perseverance.
Câmeras como a Mastcam-Z registram imagens em alta resolução do terreno, enquanto o sistema SuperCam analisa a composição química à distância, usando laser e espectroscopia para identificar minerais como a caulinita.
Detendo estes dados, pesquisadores comparam as rochas marcianas com formações semelhantes na Terra, onde chuvas intensas removem minerais mais solúveis e deixam apenas essa argila branca. O paradigma de evolução da atmosfera sugere ainda que, há bilhões de anos, Marte tinha atmosfera mais espessa, capaz de reter calor e sustentar ciclos de evaporação e precipitação.
Atualmente sabemos sobre a água em Marte, que aparece principalmente como gelo, seja nas calotas polares, seja em depósitos subterrâneos misturados com gelo de dióxido de carbono. Neste contexto, diminutas quantidades de vapor d’água também estão presentes na atmosfera fina, e alguns estudos sugerem fluxos sazonais de salmouras em encostas, porém em volumes reduzidos e de curta duração. Importante ressaltar que este descobrimento alimenta esperanças sobre o planeta vermelho, mas mostra cenário que contrasta com estimativas de que, há mais de 4 bilhões de anos, o planeta poderia ter água suficiente para cobrir sua superfície com uma camada global de centenas de metros.
Por Túlio Ribeiro