Aceno de Trump esvazia estratégia eleitoral de Lula centrada na luta contra o inimigo externo

José Raimundo
9 Min Leitura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou seu discurso na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, na manhã desta terça-feira (23), em Nova York, para reforçar a sua imagem de rival de Donald Trump no plano internacional. Sem mencionar diretamente o líder americano, marcou diferenças nas áreas geopolítica, comercial e ambiental, em meio à escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos. Mas foi surpreendido pela fala que o sucedeu, justamente a do presidente americano.
Após o encontro brevíssimo que Lula e Trump tiveram nos bastidores da tribuna, o líder americano disse ter “gostado” de Lula e acenou para a aproximação, voltada para negociar o relaxamento do tarifaço de 50% imposto pela Casa Branca a uma série de produtos importados do Brasil. Este foi o primeiro encontro dos dois presidentes desde a volta de Trump ao poder neste ano e pode ter aberto a chance para outro, na próxima semana.
Para observadores, esse posicionamento de Trump ajuda não apenas a quebrar o impasse diante da negativa de Lula em procurar conversar diretamente, mas sobretudo pode esvaziar a retórica construída pelo presidente brasileiro desde o fim de julho, de confronto com um inimigo externo apoiado por seus adversários de direita na política nacional. Essa abordagem se tornou, inclusive, a base para a campanha do presidente pela reeleição em 2026, expressa até nos novos slogans e atos oficiais do seu governo.
O jurista André Marsiglia afirmou que Lula terá agora que lidar com a possível falta de um suposto inimigo externo, ponto sempre presente em seus discursos. “Resta ver como Lula se comportará, pois sua estratégia tem sido enfrentar Trump e utilizar esse enfrentamento como plataforma eleitoral para 2026”, publicou Marsiglia em uma rede social.
Logo após Trump anunciar em julho que pretendia elevar a taxa de comércio com o Brasil para 50%, membros da oposição já começaram a denunciar a estratégia de Lula de desviar o foco dos problemas brasileiros colocando Trump no centro da agenda política.
O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputado Filipe Barros (PL-PR), disse na época não ter dúvidas de que Lula queria que o Brasil fosse taxado “justamente para arranjar um culpado externo pelo seu próprio desastre econômico. No melhor estilo venezuelano, tenta justificar o fracasso da economia colocando a culpa no imperialismo americano”, disse.
A primeira oscilação positiva de Lula nas pesquisas eleitorais no ano de 2025 ocorreu logo depois de Trump anunciar a aplicação das tarifas. Um dos institutos que mostrou a mudança na tendência foi o PoderData, que registrou alta de 39% para 42% na aprovação do governo em pesquisa realizada entre 26 e 28 de julho com 2.500 pessoas em 182 municípios.
Levantamento da semana passada da Genial/Quaest mostrou que Lula lidera em todos os cenários simulados de primeiro e segundo turno para a disputa presidencial de 2026. A pesquisa foi feita com 2.004 pessoas entre 12 e 14 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A melhora nas pesquisas deixou Lula à vontade com a situação. Ele chegou a recusar uma proposta pública de Trump para conversarem por telefone, argumentando que a conversa demandaria muita preparação diplomática prévia. Agora, com o anúncio de Trump na ONU diminui a probabilidade de Lula se esquivar de uma negociação para resolver o tarifaço.
Lula busca o confronto na tribuna da ONU antes de ser desarmado por Trump
Numa série de recados diretos a Trump, Lula afirmou em seu discurso, logo nas primeiras frases e de forma explícita que o Brasil não aceitará intervenções externas, puxando a imagem do agressor internacional que vem tentando associar a Trump. Conforme a tradição, desde 1955 o Brasil foi o primeiro país a discursar, seguido pelos Estados Unidos.
Na 10ª vez que Lula assumiu o púlpito da ONU para abrir debates de chefes de Estado, ele fez questão de defender o multilateralismo, a soberania nacional e o princípio da não intervenção, tecendo um rosário de oposições a Trump, que usou a maior parte de seu discurso para atacar as Nações Unidas e o discurso de combate à mudança climática. No pano de fundo, estava a escalada de tensões da pior crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos das últimas décadas.
Na segunda-feira (16), a Casa Branca anunciou a extensão das sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Lei Magnitsky, alcançando sua esposa Viviane Barci e o Instituto Lex, que concentra patrimônio da família. No rastro da decisão, o governo Trump também revogou vistos de seis pessoas ligadas a Moraes e do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias.
No rastro de novas sanções contra Moraes, Lula faz retórica anti-Trump
Em seu discurso, Lula adotou posições contrárias às de Trump em todos os temas, com exceção para a esperança de paz negociada para a guerra da Ucrânia trazida após recente reunião entre o presidente dos Estados Unidos e o ditador da Rússia. Lula começou atacando ameaças ao multilateralismo, perda da autoridade da ONU e intervenções externas, “que enfraquecem a democracia” e normalizam “arbitrariedades contra a soberania”.
Neste ponto, Lula criticou “forças antidemocráticas contra instituições” situadas dentro e fora do país, dando como exemplo “milicias digitais”, em referência a um processo judicial contra Bolsonaro. Ele afirmou que o Brasil sofre uma série de ataques “sem precedentes contra sua democracia” desde o fim do período militar por meio de medidas unilaterais sem justificativa contra o Judiciário com colaboração de “falsos patriotas”.
Lula frisou que a Justiça brasileira deu aviso a “candidatos a autocratas” e “àqueles que os apoiam” ao condenar um ex-presidente da República por tentar dar golpe de Estado, após um julgamento que considera transparente e justo. Neste ponto, ele deu o mais duro recado a Trump, dizendo com base em recorrente retórica interna, que não aceita tutela e que “a democracia e a soberania do país são inegociáveis”.
Lula condena genocídio em Gaza e investida militar contra a Venezuela
No restante de sua fala, Lula alfinetou Trump em vários pontos em que são radicalmente divergentes, como o combate à imigração ilegal, a regulação das grandes plataformas digitais e a classificação de carteis de drogas como organizações terroristas, citando o uso de força militar pelos EUA contra criminosos da Venezuela. Sobre a guerra em Gaza, denunciou o que considera um “genocídio dos palestinos” por Israel e disse reconhecer o Estado da Palestina.
Já Trump disse que o reconhecimento da Palestina neste momento por países como Reino Unido, Austrália, Canadá e Portugal é uma recompensa aos atos terroristas do Hamas contra Israel em outubro de 2023.
Nas questões econômicas e ambientais, Lula voltou a enfrentar Trump. Em tom alarmista, disse que a crise climática e as responsabilidades que ela impõe, sobretudo a países ricos, serão evidenciadas na reunião de cúpula da ONU em Belém, em novembro. Por fim, propôs relançar o sistema multilateral de comércio para conter “medidas unilaterais” que desorganizam cadeias produtivas, elevam preços e minam a confiança.
Já Trump desdenhou do discurso de transição para energias renováveis afirmando que a energia eólica é “patética” e a geração de energia precisa dar lucro e não prejuízos.

Por Sílvio Ribas (Gazeta do Povo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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