A manifestação tem organização do pastor Silas Malafaia, que classifica o processo contra Bolsonaro como “injustiça”. Segundo ele, o protesto é a reação à iminente condenação do ex-presidente, que, segundo os próprios ministros do STF, tende a ser decidida neste ano. Trata-se da continuidade das mobilizações por anistia aos réus do 8 de janeiro, como as já realizadas em Brasília, no Rio de Janeiro, e na própria Paulista nos últimos meses.
O evento também marca uma nova fase da articulação da direita para as eleições de 2026, apresentando Bolsonaro como vítima de perseguição judicial e reforçando sua liderança simbólica no campo conservador. A ideia é criar um ambiente de pressão popular antes da etapa decisiva do julgamento no STF.
Em suas redes sociais, Malafaia publicou: “Até quando o Supremo Tribunal vai bancar o ditador Alexandre de Moraes? O inquérito do golpe é uma farsa.” Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reforçou a convocação: “A luta continua. Por democracia, por liberdade, por justiça. Compareça!”. O deputado Gustavo Gayer (PL-GO) também impulsionou o assunto ao publicar a contagem regressiva para o ato.
A mobilização para o dia 29 sofreu atrasos devido ao feriado de Corpus Christi e a compromissos internacionais de parlamentares. A expectativa, no entanto, é de intensificação nos próximos dias.
Na terça-feira (24), Malafaia divulgou um vídeo nas redes sociais em que pastores evangélicos fazem a convocação para o evento do próximo domingo (29) e afirmam que não se pode "apoiar a injustiça". Religiosos como Claudio Duarte, Estevam Hernandes, e Samuel Câmara, entre outros, aparecem no vídeo.
Ato com Bolsonaro ocorre no momento que validade da delação de Cid é contestada pela oposição
O protesto ocorre no exato momento em que novos vazamentos colocam em xeque a delação de Mauro Cid. Em mensagens atribuídas a ele, enviadas por meio de perfil falso, o ex-ajudante de ordens nega ter incriminado Bolsonaro e acusa a Polícia Federal de distorcer suas falas. Cid também insinua que Moraes estaria conduzindo os inquéritos movido por motivação pessoal.
Esses vazamentos desencadearam reação nas defesas de outros investigados, que passaram a questionar a validade da delação — firmada com o STF e homologada por Moraes. Os advogados de Bolsonaro e de aliados, como os generais Walter Souza Braga Netto e Augusto Heleno Ribeiro Pereira, além do ex-ministro Anderson Torres, alegam quebra das cláusulas de sigilo, veracidade e compromisso legal com os fatos.
Moraes optou por preservar o acordo, mas determinou acareações e coleta adicional de provas. O entendimento da Corte, com base em jurisprudência consolidada, é que, mesmo se anulada a delação, provas obtidas de forma autônoma podem ser mantidas.
Na terça-feira (24), após a acareação entre Cid e Braga Netto, o advogado do general e ex-candidato a vice-presidente afirmou que o tenente-coronel teria entrado em contradição durante a confrontação de versões sobre o caso. De acordo com o defensor José Luis Oliveira Lima, isso teria ocorrido quando Cid tentou explicar como teria recebido um pacote com R$ 100 mil em dinheiro de Braga Netto. O advogado afirmou que vai fazer novo pedido de anulação da delação de Cid. A sessão de acareação foi realizada a portas fechadas e não foi transmitida ao público.
Além disso, Moraes determinou, em 18 de junho, a prisão do coronel Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro, por suspeita de obstrução de Justiça. A decisão se baseou em contatos entre o advogado de Câmara, Eduardo Kuntz, e o delator Mauro Cid. Kuntz era o interlocutor de Cid nas conversas por um perfil falso do Instagram.
Moraes também abriu inquérito contra Câmara e Kuntz e ordenou que os três prestem depoimento à PF. Kuntz protocolou no STF as gravações de conversas com Cid e pediu a anulação da delação.
A eventual invalidação da colaboração de Cid atingiria um dos pilares da acusação. Mas, mesmo com esse revés, o julgamento do chamado “núcleo comandante” da suposta tentativa de golpe continua, ainda que com fundamentos fragilizados.
Gazeta do Povo