“Coelhos que parecem gatos”,família sofre operação da PF por desvio de emendas

José Raimundo
9 Min Leitura

*Por Túlio Ribeiro

@gazetahoje.com

O modelo de indicar emendas para seu reduto eleitoral, para o prefeito fazer uso em obras sem licitação e gerar riqueza para o parlamentar. Quem conhece bem a região agroindustrial de Petrolina em Pernambuco, sabe como o conglomerado Coelho fizeram riquezas com recursos estatais, seja com empréstimos em bancos do governos para não pagar ou seja por aparelhamento dos órgãos na região pela família Coelho, num paradigma de enriquecimento , em contraponto  a falta de recursos para mais humildes do sertão pernambucano. Os Coelhos construíram um império que mesmo tardiamente a Polícia Federal começa investigar. São mais de trinta anos de poder e beneficiamento de suas indústrias, complexo comercial, fazendas, redes de comunicação. Pois se há governo federal, os coelhos estão participando e se beneficiando.

Neste contexto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a realizar nesta quarta-feira (25/2) buscas e apreensões e a quebra de sigilo contra o ex-senador Fernando Bezerra, o filho dele, o deputado federal Fernando Coelho Filho (União-PE) e outros envolvidos em um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares.

Fernando Bezerra Coelho é investigado por desvio de R$ 189 mi em emendas, o que gerou ação de cumprimento de 42 mandados de busca e apreensão nos estados de Pernambuco, da Bahia, de São Paulo, de Goiás e no Distrito Federal. As investigações apontam esquema de desvio de recursos públicos envolvendo emendas parlamentares e contratos da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) no município de Petrolina (PE). O caso tramita na Petição 10.684, vinculada ao Inquérito 4.905.

Como externa a Polícia Federal, o deputado federal Fernando Coelho Filho e o ex-senador Fernando Bezerra Coelho teriam direcionado verbas federais para custear contratos celebrados com a empresa Liga Engenharia Ltda., ligada a seus familiares, o que demonstraria possível favorecimento. As contratações aumentaram durante a gestão do então prefeito Miguel Coelho, parente dos parlamentares.

Além do ex-senador e de seus filhos, a operação também mira o empresário Pedro Garcez, que tem relação familiar com Fernando Bezerra. A empresa de Garcez, a Liga Engenharia, teria sido favorecida em licitações com a Prefeitura de Petrolina. Um endereço ligado ao empresário em Salvador (BA) foi alvo de busca e apreensão.Dados trazidos pela investigação demonstram que, entre 2017 e 2021, o município de Petrolina recebeu pelo menos R$ 143,2 milhões em repasses federais, sendo cerca de 94% destinados a serviços de pavimentação e recapeamento de vias públicas. De acordo com a PF, a construtora Liga Engenharia foi a principal beneficiada com os contratos de pavimentação em Petrolina. A Polícia Federal destacou que a empresa foi “favorecida com mais de R$ 100 milhões de reais em empenhos”.

O ministro também afirma que a empresa passou por uma “ascensão meteórica”. Em 2017, a Liga Engenharia foi a 27ª maior fornecedora da cidade de Petrolina, quando R$ 1,3 milhão em emendas foi empenhado. Já em 2024, saltou para a 1ª colocação, com empenho de R$ 55 milhões.

Seguindo documentação da PF, Dino traz o seguinte trecho: “É válido salientar que, conquanto FERNANDO BEZERRA COELHO tenha sido Ministro durante o Governo Dilma Rousseff, foi, também, Líder do governo Jair Bolsonaro no Senado Federal a partir de fevereiro de 2019, o que lhe colocou em posição hábil a manter parte da ascendência por ele possuída quando era chefe da pasta”.

Assim, para a PF, a família Coelho mantinha “grande influência” sobre a Codevasf e o Ministério do Desenvolvimento Regional, que foi comandado por Bezerra Coelho entre 2011 e 2013. Acrescenta Dino, a PF demonstrou “a meteórica ascensão da preferência municipal por uma única empresa”. O ministro destacou ainda as “volumosas transações em espécie”, com indícios de fracionamento e uso de laranjas nas operações.

Outro ponto destacado por Dino trazido pela investigação foi o excesso de formalismo para desclassificar outras empresas nas licitações em que a Liga foi vencedora, com valores contratuais mais altos que as concorrentes.

“A gravidade dessas increpações é auto evidente, sendo certo que a natureza atentatória aos mais elementares princípios da Administração Pública chancela, com folga, o cabimento de medidas invasivas da privacidade, visando à elucidação da verdade – em favor da sociedade e da dignidade dos próprios investigados”, escreveu o ministro.

“Demais disso, o caráter intrinsecamente dissimulado das múltiplas ocultações patrimoniais exige, como sublinhou a autoridade policial, a adoção de medidas ostensivas a fim de propiciar acesso mais amplo ao acervo indiciário, a fim de que este seja ou não confirmado”, acrescentou.

O ministro não autorizou a suspensão do exercício da função pública, nem a suspensão do direito de as empresas investigadas participarem de procedimentos licitatórios. Também indeferiu o pedido de interceptação telefônica dos investigados.

Por nota, o deputado federal Fernando Bezerra e o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho afirmaram que a operação teve viés político. “Uma vez que jamais deixamos de prestar quaisquer informações aos órgãos de controle, sejam estaduais ou federais. As contas de Petrolina, aliás, estão devidamente regulares e aprovadas”, declararam.

“Seguimos com tranquilidade e confiantes na Justiça brasileira. Nossa luta política não será abalada por perseguições de onde quer que elas venham”, acrescentaram com tom de experiência de que podem mais uma vez superar a verdade e seguir usando o modelo Coelho de crescer economicamente, deixando o sertanejo da região no desfavorecimento.

Vale ressaltar a operação de forma mais direta em outras palavras. Em novembro de 2025, a prefeitura de Petrolina, governada por Coelho, inaugurou a primeira etapa da Orla 3, um projeto que duplicou avenidas, implantou ciclovias e fez melhorias de iluminação da área na cidade, melhorias em parte bancadas com R$ 22 milhões enviados em 2021 pelo então senador Fernando Bezerra, cujo irmão é dono de um terreno na região do empreendimento e negocia uma indenização por causa da desapropriação.

Para a verba chegar aos cofres de Petrolina, foi necessário assinar um convênio entre a prefeitura e a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), cujo chefe local à época assessorou Bezerra durante o mandato no Senado.

Posteriormente e já fora da prefeitura, Coelho passou a atuar nos negócios imobiliários da região, inflados pela grande reforma. Procurado na ocasião pelo O Globo, o ex-prefeito disse que tem se dedicado “à atividade empresarial, especialmente no setor imobiliário”, desde que deixou a prefeitura, em março de 2022.

Coelho afirmou não participar de nenhum negócio no setor imobiliário na Orla 3, e que o edifício citado como empreendimento ficaria na Orla 2. No entanto, os trechos da orla são contínuos e fazem parte do mesmo projeto de revitalização da região, o que faz com que o condomínio citado fique a cerca de 200 metros do início formal da área reformada.O ex-prefeito acrescentou que assinou o “contrato de permuta com o empreendimento” em 2023 e não é proprietário do terreno. A manutenção do poder da família Coelho numa região rica, ao mesmo tempo que trouxe recursos  tornou privado recursos que poderiam diversificar a riqueza distribuindo para a população . Ao contrário disto, concentrou a riqueza entre aliados e no patriarcado de famílias endinheiradas da região. Isto tudo com ação destemida acima da lei. Corre pelos bairros da rica Petrolina uma frase recorrente: “que coelhos parecem ter astúcia dos gatunos”.

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