ALEMÃO – OPERAÇÃO POLICIAL OU MASSACRE?

José Raimundo
9 Min Leitura

Já falei em outro momento que ganha uma guerra que tem a melhor cadeia logística. O soldado precisa de suprimento alimentar, os veículos precisam de manutenção e deve haver um planejamento prévio. Uma batalha necessita de um plano, uma estratégia, uma metodologia para vencer o inimigo.

Pois bem, o que vimos dia 28 no Complexo de Favelas do Alemão foi uma “operação” atabalhoada, sem planejamento, muito menos um critério para que se alcançasse um objetivo. Os policiais chegaram em viaturas e, sem nenhum comedimento, ingressaram em um “bairro” com mais de cem mil habitantes. Claro que somente uma pequena, mas pequena mesmo, parcela daquele local tem ligação com o crime. Os policiais civis e militares, que não se comunicam entre si, nem na mesma frequência de rádio, pelas informações que nos chegam, avançaram no morro, como se diz na gíria, “com sangue nos olhos”, e passaram a disparar seus fuzis contra qualquer negro, de chinelo e sem camisa que passasse em sua frente no momento da incursão.

O resultado dessa loucura foi a morte de cento e vinte e uma pessoas. Quando afirmamos que foi uma série de atos impensados, não o fazemos por acaso. Qualquer pessoa de inteligência mediana, observando as imagens na TV, nota que foi um massacre.

A topografia do local é cercada de morros e existe um matagal ao lado de um desses morros, não raro utilizada por bandidos para fugir quando da entrada da polícia. Para evitar o que ocorreu em 2007, quando as policias militar, civil e federal, bem como os Fuzileiros Navais, deixaram escapar por essa mata dezenas de bandidos, dessa vez se posicionaram no matagal e simplesmente aguardaram os bandidos que fugiam do ataque principal, na rua de acesso à comunidade. Assim, passaram a disparar seus fuzis, sem nenhuma chance de defesa ou rendição. Foi tiro para todo lado. Quem, por acaso, estivesse por ali, foi baleado. Em outro flanco da favela a situação não foi muito diferente. É pobre? Negro? Favelado? “Bala” nele! Uma moradora relata que arrancaram a cabeça de seu sobrinho e a penduraram em uma árvore.

Não bastasse esse festival de absurdos, satisfeitos com esse despautério, os corpos foram deixados na mata. Alguns foram resgatados por alguns policiais, outros, entretanto, ficaram jogados por lá mesmo. Por essa razão, a contagem inicial estava na casa dos sessenta mortos. Quando a população, por conta própria, foi ao local do “conflito”, encontrou mais algumas dezenas de mortos. Revoltados com o abandono de seus filhos naquele lugar ermo, passaram a resgatar os cadáveres e trazê-los para a Praça principal do bairro, enfileirando-os em uma cena dantesca, digna de filme de terror, reproduzida em todos os canais de televisão e jornais pelo mundo afora.

Sobre o assunto, em mais um ato covarde, as autoridades estão tentando enquadrar essas pessoas que pegaram os corpos no crime de Fraude Processual. Diz a lei:

A fraude processual é um crime previsto no artigo 347 do Código Penal do Brasil. Consiste em modificar o local do crime, os objetos relacionados ao crime ou mesmo o estado das pessoas envolvidas, com a finalidade de induzir o magistrado ou o perito ao erro.

Se os policiais não retiraram os corpos, se os peritos não foram ao local, restou aos moradores fazer aquilo que cabe ao estado. Para encerrar de vez a insensatez, proibiram os parentes e a Defensoria de ingressar no Instituto Médico Legal.

A outrora cidade maravilhosa, mais uma vez, sai “queimada” na foto. Qual o turista que se dispõe a visitar esse local?

E as autoridades locais? O “mandachuva” que se senta no trono do Palácio Guanabara, não perdeu tempo e afirmou que “sua polícia” sabia o que estava fazendo. Só lamentou porque os Fuzileiros não emprestaram um “carro de combate” para ajudar na citada incursão. Sua fala, para além de absurda, demonstra total falta conhecimento da organização estatal. Ora, como é que um carro de combate sai de uma organização militar sem que exista todo um preparo, uma logística, uma ordem superior. Será que o governador acha que pode pedir a um coronel “emprestado” um veículo militar?

O governador, como sempre contraditório, disse no início do ano que não precisava de ajuda federal porque sua polícia tinha domínio da segurança no Rio. No dia 28 de outubro, para fundamentar o crime perpetrado contra os moradores, disse que o governo federal negou ajuda. Talvez a nobre autoridade não saiba o que significa GLO – Garantia da Lei e da Ordem. No site Agência Brasil, encontramos:

A GLO deve ser autorizada exclusivamente pelo Presidente da República, por iniciativa própria, ou em atendimento a pedido de quaisquer dos poderes constitucionais, por intermédio dos presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Senado Federal ou da Câmara dos Deputados. Além disso, o presidente poderá decretar a medida a partir de solicitação do governador de Estado ou do Distrito Federal.

A previsão de emprego da GLO consta do artigo 142 da Constituição e foi regulada pela Lei Complementar 97/1999 e pelo Decreto 3.897/2001. Na prática, a GLO concede temporariamente aos militares o poder de agir com funções semelhantes às da polícia para restabelecer a ordem, garantir a integridade da população e do patrimônio

Para quem não é do Rio, talvez não tenha a dimensão do problema. Algumas favelas atualmente são denominadas de “complexo”, vez que “emenda” com a comunidade ao lado, fazendo assim um conjunto de dezenas de milhares de moradores. A Rocinha (a maior do país) já emendou com o Vidigal.  O Chapadão tem 44 comunidades, no Lins mais 13 favelas. Além dessas, temos Cidade de Deus, Vidigal, Santa Marta, Chapéu Mangueira, Formiga, Rato Molhado, Salgueiro, Mangueira, Cantagalo, Jacarezinho, Muzema, Vila Víntem, Macaco, São Carlos, Matriz, Turano e tantas outras. Por que cargas d’agua a polícia escolheu o Alemão? Porque é emblemática (lembrar 2007).  Dessa vez esperaram os “bandidos” dentro do matagal e, como se diz no jargão policial “sentaram o dedo”.

Todas as favelas antes citadas, todas, são impenetráveis, a não ser que se chame a “tropa de elite”, o BOPE, a força policial mais letal do mundo.

O Judiciário não perdeu tempo. “Desengavetou” um processo antigo que visa   cassar o mandato do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. A pauta é para dia 04 de novembro pelo Tribunal Superior Eleitoral. Alexandre de Moraes, por sua vez, já determinou que Castro explique a tal “megaoperação”.

Para finalizar esse texto, onde caberia muito mais coisa, hoje ou amanhã a venda de drogas já deve estar rolando normalmente, não só no alemão como em todas as “bocas de fumo”. Afinal, como dizia o antigo Chefe de Polícia do Rio, um sujeito sério, Dr. Hélio Luz, “Ipanema brilha à noite”.

Quero ver a polícia fazer incursão em favela da zona sul do Rio.

Ah! E as milícias?

Paulo Bandeira – ex-policial

Advogado, Filósofo e Historiador

 

 

 

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