Lula apronta contra Milei

José Raimundo
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Se os argentinos tem a ‘milonga ou a trampa’, o brasileiro tem seu modo de burlar realidade.  Horas antes da assinatura do acordo há muito adiado com a União Europeia, o governo de Javier Milei recebeu com uma mistura de surpresa e raiva uma notícia inesperada que coloca, mais uma vez, o Mercosul sob extrema tensão.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que havia indicado que não compareceria à cerimônia de assinatura do acordo comercial no sábado, ao meio-dia, em Assunção, receberá os líderes do Conselho Europeu, António Costa, e da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, na véspera.

“Ele organiza uma cúpula paralela um dia antes. É uma falta de respeito com seus parceiros”, afirmou uma fonte governamental de alto escalão. A relação pessoal de Lula da Silva com Milei tem sido tensa desde o início e deteriorou-se a ponto de se romper nos últimos dias devido às suas posições opostas sobre a intervenção do governo Trump na Venezuela. Esse desconforto agora se estende ao presidente anfitrião, Santiago Peña, que, apesar dos recentes desentendimentos com Lula da Silva, esperava convencer seu homólogo brasileiro a comparecer à reunião em Assunção para demonstrar unidade dentro do bloco regional neste momento crucial. Essa imagem está longe de se concretizar.

Na Casa Rosada e no Palácio San Martín, chefiados pelo Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, leram atentamente a declaração emitida na noite de quarta-feira pelas autoridades do Conselho Europeu, confirmando a visita anterior ao Rio de Janeiro. Não esconderam a “decepção” com Ursula von der Leyen por essa “atenção especial” dada ao presidente brasileiro, que esperava assinar o acordo com a UE durante sua presidência do bloco regional, em 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu, antes da rejeição inicial do Conselho Europeu frustrar seus planos.

“Antes da cerimônia de assinatura dos acordos UE-Mercosul em Assunção, o presidente Costa, juntamente com a presidente von der Leyen, visitará o Brasil para uma reunião trilateral com o presidente (Luiz) Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro”, confirmou o Conselho Europeu ontem à noite em um comunicado que o Itamaraty ficou responsável por divulgar.

“O Brasil é um parceiro fundamental para a União Europeia em comércio, investimento, clima, multilateralismo, Estado de Direito, democracia e direitos humanos. A recente presidência brasileira do Mercosul foi crucial para o avanço das negociações do acordo comercial UE-Mercosul, abrindo caminho para sua assinatura ainda esta semana no Paraguai. Esta visita oficial reforçará essa forte aliança e fortalecerá ainda mais a relação bilateral”, acrescentou o comunicado elogioso em outro trecho, o que irritou particularmente Buenos Aires e Assunção.

Dias antes do evento, fontes em Brasília insinuaram que Lula não estaria no Paraguai, embora sem fornecer detalhes sobre as negociações nos bastidores com os líderes europeus. “A assinatura será feita pelos ministros das Relações Exteriores, por decisão da presidência pro tempore do Paraguai”, foi a explicação oficial dada por diplomatas brasileiros para justificar por que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e não Lula, representaria o maior país da região na cerimônia de assinatura no auditório do Banco Central do Paraguai.

Em Brasília, omitiram o fato de que os outros presidentes (Peña, Milei e o presidente uruguaio Yamandú Orsi ) haviam confirmado presença e estariam presentes na cerimônia de assinatura. Com esse novo desenvolvimento, espera-se a retomada das negociações no bloco em nível de ministros das Relações Exteriores, embora o destino pareça estar traçado: três presidentes do Mercosul, e não quatro, estarão em Assunção ao lado dos líderes da UE, que posarão sorridentes para uma foto com o presidente restante no dia anterior.

Em Buenos Aires, essa medida é interpretada como uma “vingança” de Lula da Silva após o fracasso da assinatura do acordo em solo brasileiro. Reafirmam também que Milei buscará, além da situação atual, consolidar ainda mais sua “liderança” regional, com o apoio de Trump e a intenção de unir líderes liberais em torno de si.

Por Túlio Ribeiro

 

 

 

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